
Ontem, encontrei-me escrevendo a lápis tal como quando era criança. Mas devo confessar que o objetivo não era o mesmo. Antes, o lápis me forçava saber dos meus erros e eu pedia que chegasse o momento de escrever a caneta como papai e mamãe. Depois, a caneta não acompanhava meu pensamento, borrando-os de azul, preto, verde, amarelo e causando um mal-estar esferográfico terrível à folha de papel, principalmente quando era obrigada a sentir o cheiro do corretor líquido que não lhe apaga os erros, apenas soterra-os. Palavras escritas, palavras apagadas... Para onde vão? Ficam retidas na retina da borracha? São despejadas na cesta de lixo ao lado, junto aos farelos do Polietileno que não podem mais ser retina, nem Polietileno? Tornam-se éter com ação do vento levando-as para junto daquelas desaparecidas no tempo por deleções, adições, borrões? Voam para o mundo das idéias de Platão? Da madeira e do carbono já se foram. Da razão ainda me restam dúvidas. Mesmo repetidas não têm a mesma essência. Possuem com elas a sorte de não ter ficado para trás junto às raspas de madeira, aos farelos de grafite - arranhados pela lâmina cada vez mais mortal dos apontadores, das folhas amarrotadas, do chiclete mastigado, estimulante das mentes movidas a açúcar. Perdi-me escrevendo com um lápis tal como quando era criança e irei culpá-lo eternamente pelo que apareceu no papel de pão, no papel higiênico, na carteira escolar, no banco do ônibus. Mas devo confessar que o objetivo não era o mesmo. Talvez fosse do lápis, do papel, do éter, da retina, do grafite, da madeira, do carbono, do chiclete, de Platão, do polietileno...