segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Incrédulo

Hoje tomei o 415 às seis da manhã em direção a Universidade achando que todos eram parecidos comigo e iam para o mesmo destino. Algumas piscadelas até a próxima parada provocada pela síndrome do sono que me ataca quando estou em coletivos belenenses convergiram a um casal de amigos. Ele era católico, ela caótica. Adoravam acender incensos de maracujá para harmonizar o ambiente. De calça passada e camisa engomada trabalhava em um sex shop, ela preferia suas camisas indianas ou qualquer coisa que não impedisse a respiração de suas artérias para ir à promotoria. Sentavam na última janela. Metódica, só tomava água uma hora depois do almoço; protótipo, só digeria com doses homeopáticas de coca-cola. Brigavam pelo primeiro biscoito. Raivosa, detestava tirar as roupas dele do sofá; cansado, preferia não comentar. Gostavam de dormir no canto da parede. Cautelosa, ficava com as latinhas de cerveja e guardava as “argolinhas” mesmo sem saber onde, quando e como usá-las; astuto, se doava aos copos com cachaça mineira sem esquecer o santo. Bebiam acompanhados de amendoins torrados. Romântico, mandava flores e escrevia poemas de Clarice Lispector; cética, ouvia tudo calada e respondia com singelo “eu sei”. Procuravam não entender um ao outro. De repente, viram que eu os olhava ainda em meio a minha dor sonolenta, levantaram levemente os braços recebendo de mim um sorriso lânguido. O que pensaram? Prefiro não saber. Só sei que sou mais incrédulo quanto às pessoas irem para o mesmo destino que o meu.

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